Ah!
O tempo. Palavra recorrente em meu vocabulário nesses últimos
meses. Aliás, hoje, precisamente completam-se seis meses desde a
última postagem. Mas, atingidas as metas estipuladas para essa
primeira parte do ano, vamos a um pequeno resumo de nossa aventura
pelos clássicos da sétima arte. Lembrando que o objetivo desse blog
é expor, muito brevemente, a experiência de um pequeno grupo de
aficionados pelo universo mágico dos filmes, em especial, pelos
clássicos que marcaram as gerações que nos precederam e que
decidimos não deixar relegados ao frio esquecimento imposto pela
modernidade.
segunda-feira, 16 de julho de 2018
segunda-feira, 29 de janeiro de 2018
A cinehistoriografia de Eisenstein
Muitas
pessoas não assistem a filmes “antigos” porque acham que em épocas mais remotas
as limitações técnicas impediam a realização de filmes atrativos (bem relativo
esse conceito é, diria Mestre Yoda) ou até mesmo compreensíveis. No entanto,
quem se aventura por esses mares cada vez menos navegados sabe que essa
percepção é não só equivocada como também anacrônica. Quem fazia um filme no
começo do século XX estava, na verdade, descortinando ao mundo novas
tecnologias e ao mesmo tempo, por serem pioneiros, estabelecendo a linguagem de
uma nova forma de arte, que em certa medida era ciência também. Dada a sua
complexidade o cinema era o resultado de uma evolução técnica no que se refere à
exposição em movimento de películas fotográficas e uma síntese de elementos de
outas formas de arte, estabelecendo ao longo do tempo uma gramática própria, um
amálgama que de se desenvolveu em torno da imagem de onde extraímos um
significado.
É
evidente que nós não podemos comparar aspectos de ordem técnica (resolução da
imagem, execução de efeitos especiais, qualidade de captação e mixagem de som)
entre filmes produzidos nas primeiras décadas da história do cinema com filmes
recentes, superproduções com orçamentos milionários. Entender as características,
o contexto social e, principalmente reconhecer as inovações, a própria
linguagem cinematográfica é condição sine
qua non para aproveitar a experiência de vermos esses filmes.
Em
2018 nos propomos a estudar filmes que sedimentaram as bases da cinematografia
mundial, e que cada um, a sua maneira e na sua época, exploraram o potencial
narrativo da sétima arte. De Eisenstein a Tarkovsky, de Fellini a Antonioni,
vamos percorrer ao longo desde ano que começa fascinantes trilhas cinematográficas guiados
por mestres que moldaram comportamentos e ajudaram a formar a mentalidade do
século XX.
Começamos
com a exibição de A greve de Serguei Eisenstein, belo exemplo de arte
engajada, o filme é um dos símbolos mais duradouros de uma obra que servia aos
propósitos da formação de uma consciência de classe, e em especial, do
despertar da massa para a sua potência transformadora, que, apesar de feito depois da revolução (o filme é de 1924) e direcionar a sua crítica ao ambiente
político do czarismo, o filme tinha potencial para despertar preocupação no
quadro da paranoia stalinista se tivesse sido lançado alguns anos mais tarde, já
que é uma metáfora da luta contra a injustiça e a opressão em qualquer situação
política.
Aliás, as construções
metafóricas são um verdadeiro desfile de referências visuais ao desprezo da
burguesia em relação ao proletariado urbano e aos camponeses. Esse ponto mostra
a importância do cinema enquanto catalisador dessas reflexões, posto que
somente em um filme o expectador pode ser levado a crítica dessas situações
perante uma reprodução do real a partir do poder da montagem de sequência imagéticas.
E
como a ideia é fazermos duas sessões por mês completamos a agenda com outra
obra seminal de Eisenstein, Alexandre Nevsky, que em 2018 completa 80 anos da
primeira exibição nos cinemas. Filme histórico que claramente
evoca o presente, esta película foi produzida no contexto da ameaça de uma
invasão germânica à União Soviética, coisa que acabou acontecendo com a quebra
do pacto Ribbentrop-Molotov, ou pacto germano-soviético como também é
conhecido.
O
filme conta a história da resistência russa a invasão teutônica em 1242,
destacando tanto a liderança do príncipe Alexander como a união (força da
coletividade como em A greve) dos camponeses claramente em um discurso de
alerta para os russos e um aviso aos possíveis invasores mostrando a capacidade de resistência desse este povo.
Claro
que analisando em conjunto, A greve e Alexander Nevsky, bem como Encouraçado
Potemkin e Outubro são filmes que se estabeleceram como marcos na história do
cinema. Eisenstein, a partir da construção inovadora de planos, montagem e
desenvolvimento narrativo, reverbera até hoje na sétima arte.
Vou
procurar na exposição dessa experiência não analisar cenas para não alongar em
demasia o texto, quero apenas finalizar lembrando mais uma vez que o cinema é
uma ferramenta de aprendizagem. Portanto, devemos buscar nos precursores dessa
arte a fonte de inspiração que alimentará nossa paixão pelo cinema.
Bons filmes!
Retrospectiva 2017 e além...
Nossa aventura em busca das
origens do cinema, estudando os clássicos que contribuíram para estabelecer a
linguagem do cinema continuou em 2017. Nossas reuniões de debate foram poucas,
mas produtivas. Não só as que fizemos depois das sessões, mas em outros
momentos em que conversamos sobre os filmes “antigos” que estávamos
conseguindo, garimpando em busca de tesouros que antes pareciam impossíveis.
Aliás, é nesse sentido que escrevo essas linhas.
Há
trinta anos, quando comecei ainda adolescente a “carreira” de cinéfilo - bem,
acho que quando você começa a ver novamente os filmes das videolocadoras porque
já não há mais inéditos; quando você começa a comprar aqueles guias de filmes
tipo 500 melhores filmes de todos os tempos, lendo as fichas técnicas, sinopses,
observando o nome dos atores que já conhecia; fazendo assinatura de revistas
sobre cinema; e principalmente, quando você começa a anotar os títulos de todos os filmes que
assiste (comecei a fazer isso em 1983), Ufa! Acho que você está se
transformando em um cinéfilo. Bem, como dizia, desde muito jovem senti-me
apaixonado pelo cinema e pelo que ele poderia me proporcionar enquanto
experiência cognitiva e sensitiva. Mesmo limitado pela falta de acesso a todos
os filmes que queria assistir.
Nessa
época era muito difícil conseguirmos ver os filmes clássicos e nem precisavam
ser tão antigos assim. Não havia streaming, TV a cabo ou DVDs, nenhuma mídia
digital que facilitasse o compartilhamento; e diga-se, em minha cidade a sala
de cinema deixou de ser opção devido ao desabamento da última que ainda
funciona durante a década de oitenta. Assistir a filmes tinha que ser na TV
aberta ou, como já citei, recorrendo as videolocadoras, que obviamente
abasteciam as prateleiras com filmes mais recentes, blockbusters, com maior
chace de serem locados. Eram raros os filmes de décadas mais remotas, exceção
feita a suprassumos que pertencem a cultura pop como O poderoso chefão, Era uma
vez no Oeste ou O exorcista.
Comecei
a ter acesso a filmes das primeiras décadas do cinema e também a filmes
produzidos fora da produção de mercado hollywoodiana com a TV Cultura, que com
programas como o Mostra de cinema
internacional, começou a me proporcionar a chace de ver filmes como a versão de
1939 de O corcunda de Notre Dame e O Encouraçado Potenkin, de Serguei
Einsentien (falarei mais desse ícone do cinema na próxima postagem).
Sendo
assim, havia um sério risco de nunca conseguir alguns filmes que lia tanto a
respeito. Com é óbvio para todos, a realidade agora é outra. Pode-se sair da
teoria e mergulhar na experiência de vermos praticamente a qualquer filme que
desejarmos. Nos últimos anos, também devido ao fato de termos criado esse grupo
de estudo que chamamos de Chá com cinema, tenho visto muitos desses filmes, não
só durante as sessões do Chá com cinema, mas isoladamente a partir de conversas
sobre o nosso amor pela sétima arte. É natural que ao vermos um filme clássico que
tenhamos gostado, pela referência cruzada procuremos ver os outros filmes do
mesmo diretor, atores e produtores ou até mesmo um que faça parte daquele
movimento cinematográfico.
Em
2017 vi vários desses filmes desejados há muito tempo. Vou citar aqui alguns
apenas, que emblematicamente representam filmes que sempre desejei ver e
consegui no ano passado. Desses, alguns são bem antigos, como Drácula (versão
de 1931), outros nem tanto, mas simbolizam todos eles essa busca para
recompensar o tempo perdido, ou para celebrar a oportunidade que agora tenho.
São eles:
Em
2018, nas sessões do Chá com cinema me imporei dois desafios: ver dois filmes a
cada mês que representam o cinema das primeiras décadas do século XX e
fazermos um estudo sobre as correntes e movimentos cinematográficos, em que,
uma vez por mês, vamos assistir a um filme que os representa artística e
ideologicamente. Começaremos com o movimento Dogma 95 e o filme Festen, de Thomas Vinterberg.
Bons
filmes!
sábado, 20 de maio de 2017
Uma odisseia pelo cinema
Ao criarmos o nosso pequeno cine clube, meio que acordamos que os filmes assistidos seriam inéditos para todos. Talvez para que estivéssemos em um mesmo ponto de partida quando fôssemos debate-los sem uma experiência anterior que pudesse “corromper” nossa imersão naquele universo. Ou simplesmente porque assim fugiríamos da óbvia tentação de reexperimentarmos aquilo que já nos agradou, e sobre o qual já tínhamos elaborado alguma opinião. Lançamo-nos ao desafio de escolher sempre filmes que tínhamos uma imensa vontade de ver ao longo de nossa trajetória na estrada da cinefilia, mas por algum motivo, geralmente falta de acesso a obra, não havíamos conseguido assistir.
Porém, como são oportunas as exceções, fugimos pela tangente em algumas situações especiais. Muito especiais. Há dois anos realizamos uma sessão comemorando os 30 anos do lançamento de Amadeus nos cinemas brasileiros. Aliás, acabei não fazendo essa postagem. Mas foi muito legal. Meu filme preferido, diga-se de passagem.
Desta feita, já dentro das comemorações dos 50 anos de uma das grandes obras-primas da sétima arte, realizamos uma sessão de 2001 Uma odisseia no espaço, criada pela mente brilhante de Stanley Kubrick. Claro, apenas em 29 de abril de 2018 o filme estará oficialmente completando suas cinco décadas, mas resolvemos ser os primeiros a comemorar. Por que não? No ano que vem, veremos novamente. Quem sabe um dia a gente não entende? Brincadeira, já tinha conseguido entender na terceira vez, essa foi a sexta.
Mas por que ver esse filme mais uma vez?
Por que, de certa maneira, é sempre a primeira. Grandes obras de arte tem sempre algo a nos ensinar quando nos deparamos com elas, não importa quantas vezes façamos isso. É como se a nossa própria evolução enquanto ser pensante nos recondicionasse a novas percepções, e o aparelhamento cognitivo se expandisse rumo a novos horizontes. Vermos 2001 Uma odisseia no espaço como um objeto de conhecimento nos obriga a repensar continuamente nossa condição diante do inatingível, e ao mesmo tempo refletir sobre como lidamos com a nossa busca pela solução dos mistérios do mundo, seja ele em outras galáxias ou dentro de nós mesmos.
Bom, não vou aqui fazer uma resenha do filme, pois quem já leu o blog sabe que não é este o objetivo desses textos. Quero só compartilhar com meus colegas cinéfilos esse imenso prazer de usufruirmos dessas maravilhas da cinematografia. E, como sempre digo, tentar estimula-los a realizar experiências como essa. O cinema é uma grande oportunidade de discutirmos ideias, aprendemos acima de tudo. Estamos cada vez mais mergulhados numa sociedade formada por pessoas sem foco, sem capacidade de concentração, distraídos, coisificados e superficializados por ferramentas que se afirma facilitarem a nossa vida, quando na verdade sugam a nossa disposição para o exercício do pensamento e da reflexão. Muitos já nem suportam mais estar diante de algo que dure mais de 10 minutos. Uma pena.
Ao final da exibição tivemos o nosso tradicional debate, ouvindo a trilha sonora do filme ao fundo e tomando o nosso chá gelado. Conversamos durante uma hora sobre os aspectos essenciais da película e traçamos alguns comparativos entre e o livro e ela, já que Davi e eu havíamos lido a obra de Artur C. Clark, que, aliás, foi escrita concomitantemente ao filme.
Como de costume, essa nossa reflexão coletiva foi regada ao maravilho chá gelado, desta vez com folhas de laranja, limão e cubos de gelo.
Como de costume, essa nossa reflexão coletiva foi regada ao maravilho chá gelado, desta vez com folhas de laranja, limão e cubos de gelo.
Quero mencionar também que acabei de adquirir mais duas obras que irão certamente contribuir em um maior embasamento para as nossas discussões futuras.
Aliás, estou pensando em um futuro próximo fazer uma postagem sobre alguns livros sobre cinema que gostaria de recomendar. Vale muito a pena conhecer um pouco mais sobre o cinema, envolvendo produção, história, etc., pois isso realmente contribui para experimentarmos mais a fundo a obra.
Quando estava terminando o texto da postagem os correios entregaram duas obras que eu tinha encomendado para a audição após o filme no momento do debate. Não deu tempo chegar, mas serão ouvidas, muitas e muitas vezes.
É isso. Até a próxima e bons filmes!
sexta-feira, 28 de abril de 2017
Amigos, Chá e Cinema: estamos de volta!
O nosso grupo de estudo e apreciação do cinema clássico surgiu
da imensa vontade de reunir os amigos que compartilham uma visão do cinema
enquanto arte, entretenimento e, essencialmente, fonte de aprendizagem e
reflexão. Nosso objetivo era tentar nos aprofundar na recepção de algumas obras,
indo um pouco além da mera passividade diante da película, investigando o filme
enquanto objeto de conhecimento. Sendo assim, fizemos uma seleção de obras
clássicas, algumas mais remotas, outras nem tanto, mas que tenha, cada uma a sua
maneira, causado um impacto na história da cinematografia.
Como pode ser conferido pela datação das postagens, passei um
tempo sem publicar textos devido a paralisação das atividades do grupo.
Reunimo-nos aos sábados à noite durante um ano e meio ininterruptamente, mas
quando justamente criamos o blog, as atividades foram interrompidas por
compromissos profissionais e pessoais que nos impossibilitaram de seguir com os
encontros e discussões. Mas é claro, não paramos de assistir a filmes e ler
sobre o assunto. Apesar de algumas tentativas frustradas de retomar o grupo, em
outubro de 2016 finalmente conseguimos. Ufa!
Bem, por que o blog? Achamos que com a divulgação dessa
prazerosa experiência, possamos despertar o interesse de outros cinéfilos a
tentar fazer algo parecido. Posso garantir que vale muito a pena.
Pessoal, continuo o texto um pouco mais abaixo. Antes vejam os
filmes que vimos recentemente:
Observem a variedade de gêneros e temas. Porém, todos
maravilhosos. Além disso, proporcionaram ótimos debates. Por falar nisso,
explicarei brevemente como funcionam os encontros:
Eles acontecem uma vez por mês. Fizemos assim para que não nos
sintamos pressionados, já que às vezes a agenda de trabalho não permite nossos
encontros a cada semana. Também acaba servindo para dar aquele sabor a mais,
pela raridade dos momentos. Mas antes desse encontro, cumprimos algumas etapas
de preparação. É verdade que cada um de nós assiste a vários filmes nesse
intervalo, mas procuramos fazer desse encontro uma experiência diferenciada,
onde aproveitamos o máximo que o filme pode nos proporcionar, já que é também um
momento de estudo da obra, mas também de deleite.
Bem, essa “preparação” consiste basicamente na leitura de
alguns textos que, como coordenador do grupo, eu disponibilizo na página do Chá
com cinema no Facebook. Juntos ao link dos artigos, acrescento trailer original
do filme, sinopses e opiniões de críticos consagrados, além da leitura de alguns
guias de cinema que abordam o filme. Feitas essas leituras, marcamos a data da
exibição.
No dia em que nos encontramos para assistirmos juntos ao filme,
combinamos não tratar antecipadamente de nossas expetativas, já que em sua
grande maioria, os filmes que selecionamos nunca foram assistidos por nenhum
membro do grupo. São filmes que sempre desejamos ver, mas que agora com a
facilidade de acesso, podemos realizar esse desejo. Após o filme, embasados
também nas leituras anteriores, e em pequenas anotações que fazemos durante a
projeção, fazemos um saboroso debate sobre a obra.
Durante o último debate, em que falamos sobre o filme Cabaret,
passamos a fazer a gravação de nossos opiniões como forma de registro, e quem
sabe um dia dou um jeito de disponibilizar aqui. Vamos também introduzir um novo
fetiche para os próximos encontros: usar a trilha sonora do filme como fundo
musical para os debates. São ideias que vão surgindo. Nesse caso, porque
adoramos música, e especial as trilhas instrumentais dos filmes.
Sinceramente, chequei a pensar que uma das mais gratificantes
aventuras nas quais embarquei havia chegado ao fim. Nosso pequeno Cine clube
começou a todo vapor, mas por continência dos destinos individuais de cada um
dos membros, teve que ser interrompido. Mas felizmente, estamos de volta e
imaginem, com muito mais vontade, acumulada nesse tempo de intervalo. Com imenso
desejo de estudar e também, divertir-se com os clássicos do cinema antigo, ou
como diria a crítica Pauline Kael, com os filmes que ainda não vimos.
O nosso retorno aconteceu precisamente no dia 04 de outubro,
quando reinauguramos o Chá com cinema com o filme Drugstore Cowboy, do diretor
americano Gus Van Saint, produzido em 1989 e imerso naquele universo que foi
classificado como cultura indie. Por que esse filme em particular? Não quisemos
escolher nada que tivesse um caráter excepcional por se tratar de um retorno as
atividades do projeto. Ele simplesmente estava na lista há muito tempo e
tínhamos muita curiosidade sobre a obra, posto que eu particularmente adorei
Elefante, filme dirigido por Saint em 2001 e que me chamou a atenção para o
“estilo” do diretor.
A partir daí fomos escolhendo os próximos filmes e alguns
títulos foram se impondo por algumas circunstâncias bem específicas, como o
último que vimos Cabaret, que lembramos pela sucesso recente de La la land.
Então pensamos em outro musical, que também teve muitas indicações ao Oscar e
ainda não tínhamos visto. Bem, o certo é que não faltam filmes pra ver. Deus nos
dê muitos anos de vida para aproveitamos o grande acervo de obras-primas que
cineastas geniais nos legaram. Amém!
Bons filmes!
terça-feira, 5 de agosto de 2014
Arte, cinema e epifania
Epifania. Do latim: epipháneia; intuição manifestada a partir de algo inesperado; revelação.
De onde vem o conhecimento? Quanto mais simples a pergunta, mas nos perturbamos em responder de maneira segura. A discussão entre a preponderância do sujeito ou do objeto no processo de aquisição de novos saberes percorre a raça humana desde que nossos companheiros de jornada se encontravam na ágora ateniense para travar seus embates filosóficos. Claro que a síntese óbvia seria a defesa da interação entre as duas partes, o que nos levaria a uma segunda conclusão: o entendimento humano varia de uma pessoa para outra devido as diferenças intelectuais e contextuais. Mas o que exatamente acontece quando aprendemos algo de valor para nós? Como podemos descrever essa sensação imersos numa miríade de novas informações nos bombardeando a todo instante? E quais os critérios para a definição de algo relevante?
Partindo do princícpio de que valorizo aquilo que minha inteligência sensível me aproxima, digo que gosto daquilo que me deixa satisfeito. No entanto, a simples sensação de saciedade dos instintos não seria suficiente para nos tornar humanos, no sentido evolutivo do termo. Sabemos que a nossa mente nos condiciona a necessidade de aprender, e aprendendo nos tornamos mais aptos ao entendimento de nós mesmos. E como coletivamente, a humanidade reproduz esses estágios de evolução cognitiva?
Arte. Capacidade criadora do ser humano; representação concreta do real.
Aprendemos, evoluimos e registramos o processo. Para quê? Por quê? Pode-se inferir a ideia de que fazemos isso para nos regogizarmos dos nossos feitos, ou para deixar impresso na história a nossa passagem, fotografando um momento na temporalidade abstraída de seu sentido mais efêmero. Talvez seja isso tudo, mas… certamente o fazemos para pontuar uma necessária reflexão em torno do fazer, do pensar, do viver, do estar presente, e como num ciclo interminável, aprendermos a entender o que estamos fazendo. Quando vemos uma obra de arte, vemos também o que sentimos, como num mergulho por nossa incosciência planejada (por outros, talvez). E a sensação de descoberta não está atrelada necessariamente a um mapa de seu percurso, porque talvez não exista um exatamente. Quem sabe não estamos vendo a nós mesmos, mais do que tudo?
Cinema. Arte e técnica de fazer filmes; representação estética do real ou da imaginação.
Sempre vi um filme como uma espécie de síntese das outras artes, pois imagem, som e texto se misturam numa sala de projeção. Mas o cinema não é só essa mistura. Um filme, enquanto aparência de similaridade com o mundo real, é a arte mais distante disso, justamente porque nos aprisiona nessa aparente reprodução do mundo sensível. E, enquanto dominados nesse instante de simulacro, a vida nos é re-editada por novas percepções, enquadrando-nos na imagem que atentamente conduz o espectador a testar seus valores. Aprendemos enquanto assistimos a um filme, claro, mas também ensinamos a nós mesmos a diferença elementar entre a mentira e a ficção. Inventamos para nos dizer a verdade. Ou pelo menos fazer pensar sobre ela.
Aprendi muito assistindo a filmes. Acho que não poderia citar aqui todos aqueles que me provocaram a sensação de ter valido a pena dedicar parte do meu tempo a assisti-los, e a debate-los com amigos, pessoas que navegam juntos comigo nessa paixão pela arte cinematográfica. Então, faço aqui uma singela homenagem a algumas cenas que me marcaram profundamente. Aquelas cenas que nunca me saíram da mente, que voltei várias vezes a fita para rever, que revejo a cada instante que quero voltar a sentir aquela epifania.
Algumas cenas tem realmente esse poder, mas obviamente, talvez me diga algo que outras pessoas não sintam, talvez sintam por outros filmes, outras imagens. Isso é algo realmente pessoal. O que posso dizer, resumidamente, é que aprendi algo de valor com elas, e devo isso a seus realizadores, e ao cinema de uma maneira geral.
Três homens em conflito: esse é o clímax!!! Aquela cena para a qual o espectador é puxado desde o começo do filme e aí... você respira junto com os atores. Sergio Leone, muito obrigado!
Tempos modernos: onde termina a máquina e começa o homem?
Um sonho do liberdade: Red ouve Andy dizer que a vida se resume em duas coisas. Claro, não vou tirar a graça de quem não assistiu, mas uma coisa é certa, minha vida se divide em antes e depois de ver essa cena.
2001 Uma odisseia no espaço: milhares de anos da história humana resumidos em uma cena. Quer mais? Corte perfeito.
Amadeus: o que falar aqui? Filme da minha vida. Amo todas as cenas, mas a atuação de F Murray Abraham é uma aula!!!
Os caçadores da arca perdida: e aí Dr. Jones? Vamos destruir a História? Uma cena que deixa claro a reverência que nós temos pelo nosso passado, como algo que nos identifica com nós mesmos, enquanto humanidade, mesmo para quem nunca percebeu isso. Aqui foi o meu despertar nesse sentido. História e cinema, duas paixões.
Cinema Paradiso. Você gosta de cinema, é sensível? Melhor, você gosta muito de cinema e é muito sensível? Respire fundo antes dessa cena.
De volta para o futuro: obra-prima travestida de sessão da tarde. Filme genial, cada vez que assisto novamente, detenho-me a observar detalhes que não havia percebido. Essa cena em particular? Rock and Roll, é claro!
Platoon: a cena da morte de Elias. É assim que a gente fala. Foi um filme que eu precisa assistir na adolescência. Oliver Stone historiador é o nome de um artigo de Robert Rosenstone. Eu sei bem o que isso significa.
O piano: beleza que só o cinema, síntese de todas as artes é capaz de proporcionar: imagem e som... e garganta apertada. POESIA!
Central do Brasil: Pietà ao contrário. Quem cuida de quem? Amor que se forma e que se estende ao espectador. Sublime, inacreditavelmente sublime.
Planeta dos Macacos: fomos sós? É a terra? Não!!! Todos nós dizemos isso juntos com Charlton Heston.
Spartacus: aos 7 anos, madrugada de cinema especial da Rede Globo, aprendi três coisas: amar o cinema, a história e Stanley Kubrick.
O show de Truman: o céu é o limite!!! Mil reflexões por segundo. conclusão: ainda pensando à respeito. É por isso que arte é tão necessária.
E as cenas que o leitor prefere? Gostaria de debatê-las aqui no blog. Até a próxima, onde vou fazer a indicação de algumas leituras que ando fazendo sobre o cinema. Até lá!!!
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